

A formação e transformação do território paulista foi tão rápida e intensa nos últimos séculos que nós enfrentamos hoje dificuldades profundas de nos percebermos dentro dele. E quando se trata de descendentes de imigrantes, a situação é ainda mais grave.
Deslocados aos milhares para o interior de uma vastíssima extensão de terras e isolados no interior de fazendas dos “sertões paulistas”, povos de todo o mundo – com suas tradições, costumes e hábitos singulares – se veriam absorvidos numa rotina tão dura nas fazendas de café, e tão restrita em suas possibilidades de sociabilidade, que os seus costumes e tradições tenderiam a se dispersar, se homogeneizar ou ainda se recompôr no interior de uma outra cultura, num esforço contínuo de substituições e adaptações.
O regime de “colonato”, base através da qual os imigrantes se fizeram incorporados às fazendas de café, fundamentava-se no trabalho familiar, teia de relações que aqui se definia como uma “unidade de produção” constituída por “pessoas de trabalho” com idade variável entre doze e sessenta 60 anos. Identificados como “meia-enxada” e “enxada”, as famílias (com variação média entre cinco e sete pessoas) contavam com um “chefe” (em geral, o pai) na organização e controle das atividades que recebia em troca um valor fixo pelo trato dos cafeeiros (em unidades de mil pés), um valor variável pela colheita e alguma remuneração (ou não, na forma de diárias) pelos serviços prestados ao fazendeiro. Com direito à moradia gratuita e ao usufruto de benfeitorias, cada “unidade de produção” (colono) também podia/devia plantar milho, feijão e arroz em terrenos específicos (indicados pelo fazendeiro), manter uma pequena horta, criar animais de pequeno porte (aves, suínos) e utilizar de alguma pastagem para poucas vacas e cavalos (BEOZZO BASSANEZI, 1986).
Entre os italianos, imigração que acançou a cifra de 1,2 milhão de pessoas entre as décadas de 1870 e 1945, as famílias procedentes de diversas regiões trouxeram consigo costumes e tradições alimentares que, por força das condições de vida e trabalho, ou ainda, das características do novo país, exigiram mudanças e interações que acabaram por aproximar as culinárias italiana e paulista. Neste sentido, podemos pensar o caso do fubá: gênero alimentício disponível nas terras paulistas – ao mesmo tempo em que largamente utilizado pelas populações agrícolas do norte e centro da Itália –, o fubá logo se fez incorporado ao cotidiano alimentar dos imigrantes através da “polenta” e da “broa” (em particular, entre as famílias sulistas que não tinham o hábito da polenta). A cebola e o alho (condimentos básicos na Itália) se mantiveram presentes, enquanto o feijão (ausente na culinária italiana) se fez incorporar em razão da fartura e dos preços baixos. O arroz (de forte presença em várias regiões da Itália) também teria uso recorrente, prestando-se a substituir quando necessário a farinha de trigo, a cevada, o centeio, além de se somar à dieta cotidiana, os produtos da horta (almeirão, couve, abobrinhas, pimenta, cebolinha verde, entre outros, cultivados pela família), os ovos, queijos e frangos. O vinho, de tempos imemoriais no velho mundo, compunha um outro campo de significações e sua presença associava-se às tradições, cabendo-lhe conferir identidade às famílias italianas que, sempre que possível, o trazia à mesa. Outros gêneros, ainda, como as lingüiças e o toucinho (tão prestigiados na Itália, apesar de ausentes na dieta dos camponeses) ocupariam um lugar especial na rotina dos trabalhadores, mas seu consumo dependia de outros processos.
A matança de animais de médio ou grande porte exigia uma organização capaz de garantir o consumo imediato das carnes, o que se dava com a partilha com familiares ou vizinhança; com o consumo coletivo em festas do calendário comunitário (natal, páscoa, carnaval, padroeiros, etc.); com o consumo em caráter particular (casamentos, batizados, aniversários, etc.), ou ainda, com a comercialização em feiras públicas e açougues. No impedimento do consumo imediato, outros procedimentos culturalmente balizados entravam em cena: o salgamento, a defumação, a secagem e o cozimento, processos que, a depender das tradições regionais, originavam presuntos, morcelas, salames, salsichas e demais alimentos criados de carnes em conserva.



